quarta-feira, outubro 21, 2009


Carlos Drummond de Andrade por José Miguel Wisnik


Anoitecer

Carlos Drummond de Andrade

É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.

É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.

É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz - morte - mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.

por José Miguel Wisnik:

1 Comentários:

Às 3:47 da tarde , Blogger Marcelo Mayer disse...

opa! esta imagem tem num post de meu blog
é parceirinho 100%... sempre presenteando com belas músicas
vou musicar o poema de toquinho que ele fez quando o timão caiu e quem sabe ser postado aqui :D

um abraço!

 

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