segunda-feira, agosto 07, 2006

Fernando Pessoa por Maria Bethânia

Passagem das horas

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido
[...]
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
[...]
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
[...]
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos
[...]

Álvaro de Campos
(Excertos: Maria Bethânia)


Para fazer download:
http://www.badongo.com/file/1186584
ou
http://rapidshare.de/files/28409237/Passagem_das_horas-Invocacao.mp3.html

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